Personagem

O amor tarda, mas não falha!

Liça Bomfim: Renascer para o amor é possível

Por nunca ter se identificado com seu nome no registro de nascimento: Elecir Amorim Bomfim, hoje com 85 anos, adotou a identidade de Liça Bomfim. Nascida em Salvador (BA), de onde saiu com três meses de idade, da infância e da juventude traz recordações pouco vibrantes, embora reconheça que não tenha lhe faltado amor, numa família de cinco irmãos. Das primeiras etapas da vida herdou a educação rígida,cercada de muitos tabus.  

Tem na lembrança que o pai, pernambucano – diretor à época das Lojas Brasileiras, orientou os filhos a buscarem formação, valor do qual a mãe, também nordestina, de Alagoas, não comungava, uma vez que pregava que filha mulher deveria ser destinada ao matrimônio e aos afazeres da casa. Psicóloga, pedagoga e ainda com o curso superior em artes plásticas, contrariou preconceitos e levou à sério a formação acadêmica. Foi ainda, por 11 anos, docente na Faculdade de Artes Plásticas, da Universidade Mackenzie.

Liça, a caçula, tinha saúde frágil, marcada por bronquite e pneumonia recorrentes. “Eu era a porcelaninha da casa”, o que fazia com que a mantivessem sempre acamada e com pouca autonomia nos movimentos. Livre das restrições físicas e de doenças, na adolescência seu dever era guarda-se e preservar a honra até o casamento, que aconteceu quando tinha 24 anos. Dessa união – que durou 32 anos – nasceram quatro filhos – dois partos de gêmeos – duas meninas e dois meninos, sendo que um dos recém-nascidos do sexo masculino morreu com poucos dias. A separação aconteceu por decisão exclusiva do marido.

Num misto de circunstâncias e escolha pessoal, prosseguiu por mais de uma década sem um novo companheiro. Reforça que, no consultório, sempre aconselhou as pacientes a buscarem exatamente o caminho inverso, o do amor e da convivência a dois.

Os livros publicados

Um perfil no site de relacionamento

Se a vida aos 70 anos, transcorrendo de forma solitária, não a incomodava, o mesmo não acontecia com uma de suas filhas, que tomou a decisão de criar um perfil para a mãe, num site de namoro. Mesmo sem grande familiaridade com o mundo virtual, Liça encarou o desafio de estabelecer contato com eventuais pretendentes, preferencialmente na mesma faixa etária que a sua. “Fui achando tudo aquilo prazeroso e lúdico”.  Além da finalidade de encontrar alguém, checar recados e estabelecer novas conversas virou rotina na vida da entusiasmada senhora.

“Cheguei a aceitar o convite de sete pretendentes, só para um cafezinho”, esclarece. Até que um engenheiro químico, de nome Luiz, surgiu na tela e deu “match”, interesse mútuo e incontestável. “Eu tive certeza na hora de que era ele que estava destinado a mim”. Assim, encontrou o parceiro com quem iria viver o novo casamento (em 2011 – foto dos dois acima, no dia da cerimônia), que celebrou 14 anos de felicidade plena.

Ela conta que descrevera no perfil que o “candidato” deveria ter 1,70 metro de altura, no mínimo e não mais do que 78 anos. Luiz media 1,69 metro e já havia completado 79 anos. E a resposta dele veio enfática, ao dizer que se tivesse um centímetro a mais e um ano a menos iria se candidatar. “Isso já me conquistou de cara”, reconhece. Mas não era suficiente e Liça foi em busca de mais informações. “Qual não foi a minha surpresa quando li a frase-chave no perfil dele: satisfaço todas as suas fantasias!”, relembra com seu belo sorriso no rosto.

A troca de mensagens continuou e mais surpresas positivas. Luiz contou que toda sexta-feira, já aposentado, se vestia de palhaço e percorria hospitais para levar alento aos doentes, novo motivo para ela se encantar. Investiram tempo em extensos relatórios sobre saúde, família, vida econômica, problemas, defeitos de cada um etc como se já articulassem, com atenção aos detalhes, uma vida em comum. Marcaram o primeiro jantar. Ela, com limitação no movimento causada por patologia nos dois joelhos, foi amparada pelo novo par, de forma carinhosa e sem qualquer constrangimento, ao descer as escadas do restaurante.

Homenagem ao casal, escultura de Ana Lemos

O inesperado pode acontecer

Para Liça é sempre importante se manter atenta aos sinais. “O inesperado surge e não vá dizer que não teve chance”. Ao final da mesma semana do primeiro encontro, o convite para uma viagem. Os familiares de ambos estranharam e ela ficou relutante, mas Luiz cativou a sua confiança e os dois partiram para o desejado passeio. “Minha vida, inclusive sexual, floresceu aos 70 anos”. Uma história de amor interrompida mais de uma década depois, apenas porque o companheiro faleceu.

Para ela, que ainda atende, em sessões online, clientes de todas as idades, a alegria de viver não reside, necessariamente, em se ter um parceiro. Pode-se buscar horizontes pessoais e profissionais, propósitos que independem de um relacionamento a dois. “Porque sem objetivo, você fenece”, ensina.  E foi movida pela convicção de que na maturidade não se deve aposentar planos, que ela decidiu, inspirada na própria história, escrever o primeiro livro, em 2019: “Os Velhos Também Amam” (*), pela Editora Cajuína. E veio a segunda obra, há dois anos: “Bem-Aventurados os Velhos”, resultado de produção independente, da mesma forma guiada pelo olhar marcante da autora, de que o amor pode florescer, mesmo que na longevidade.

Fotos: Acervo Pessoal e Afinaidade

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 (*) Para adquirir o livro:

https://www.amazon.com/-/zh_TW/Li%C3%A7a-Bomfim-ebook/dp/B07N8HYYBL