Trabalho e Carreira

A gramática da maturidade: trabalho, propósito e legado

Por: Elisa Mariz*

O ser humano nasce e cresce em constante transformação. Desde os primeiros passos, constrói-se um patrimônio que serve de alicerce para o corpo e para a mente, ao longo da existência. As virtudes aprendidas na infância formam a base que molda o cidadão consciente, conforme ensina Platão em A República. Para o filósofo, a educação inicial não se limita à transmissão de conhecimento, mas volta-se à edificação do caráter e da ética. É o cultivo desses pilares essenciais que permite ao indivíduo integrar-se de forma justa e responsável à sociedade, transformando potencial em ação e valores em conduta.

Nesse processo de formação, o aprender ocorre por meio do movimento e da experiência. Sob a ótica do construtivismo de Jean Piaget, compreende-se que o conhecimento não é recebido passivamente, mas construído na interação dinâmica entre o indivíduo, os objetos e o espaço. Se “brincar é o trabalho da infância”, o universo lúdico, matemático e imaginativo é o campo real de experimentação, onde se aprende a gramática da vida. Ao transpor esse princípio para a fase adulta, percebe-se que o trabalho assume papel semelhante: ele é o “brincar” maduro, a arena de desenvolvimento contínuo e de socialização.

No mundo corporativo pautado por princípios éticos e pela valorização humana, o trabalho transcende o sustento financeiro. Quando existe a vivência e o incentivo ao crescimento mútuo, o espaço profissional torna-se um centro de aprendizagem contínua, voltado à expansão do capital intelectual e ao aprimoramento de novas competências. É nesse cenário que se manifesta a Ética de Weber, transformando a ocupação em propósito existencial e vocação. Para Max Weber, o trabalho confere sentido à vida e organiza a sociedade em torno da responsabilidade.

Ao longo das décadas, essa rotina de desafios esculpe a identidade das pessoas, tecendo narrativas singulares, consolidando valores, fortalecendo competências e deixando marcas que ultrapassam o âmbito profissional para alcançar a dimensão humana e relacional da existência. No entanto, com a proximidade da aposentadoria, surgem perguntas relevantes e vitais: o que essa jornada representou para o indivíduo? Quais referências ficaram? Como ressignificar esse legado para que ele não se desvaneça no tempo?

A longevidade conquistada é uma vitória da ciência, atingindo patamares históricos, mas compete a cada um a responsabilidade de zelar pelo equilíbrio entre corpo e mente, cultivando o envelhecimento ativo e saudável como um projeto de vida. Envelhecer de forma ativa não é um acaso, mas uma decisão deliberada.

Reinventar-se após os 60 anos é um dos grandes desafios contemporâneos. Diante de um mercado tecnológico e competitivo voltado às novas gerações, o vasto capital intelectual dos longevos precisa encontrar — ou criar — novos canais de aplicação. Isso implica reconhecer que a experiência acumulada não perde valor, mas se transforma em diferencial estratégico, capaz de orientar, inspirar e gerar impacto em diferentes contextos. A reinvenção, seja por meio de projetos autorais, consultorias, do empreender ou do voluntariado estratégico, é a ferramenta para manter o vigor e a autonomia, além de favorecer o sentimento de pertencimento, utilidade e continuidade existencial, elementos essenciais para a saúde emocional e para a construção de sentido na maturidade.

Mais do que uma escolha, trata-se de uma necessidade vital no tempo presente. O essencial é a conexão permanente com o saber. Como demonstra o neurocientista David Eagleman, o cérebro possui uma plasticidade dinâmica, sendo constantemente reconfigurado por novos estímulos. Manter a atividade impulsiona essa neuroplasticidade, e evidencia que a sabedoria acumulada não se aposenta.

O corpo pode assumir ritmos diferentes, mas o trabalho, em suas novas configurações e formatos, preserva a vivacidade do espírito e mantém a mente em eterna expansão. Afinal, o cérebro jamais cessa seu ofício; mesmo no silêncio do sono, ele permanece em constante vigília, processando a existência e reafirmando que o dinamismo é a nossa condição permanente na busca incansável por uma vida com protagonismo.

* Elisa Mariz é autora do livro ‘Além dos 60’. A escritora é formadora, professora, pesquisadora (Educação Ambiental, ESG e Empreendedorismo Sênior). Licenciada em Matemática pela Universidade Guarulhos; Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica – PUCSP e Universidade de Coimbra/Portugal (2009). Pós-doutoranda no Oxford Institute of Ageing da Universidade de Oxford, UK e Mestre em Administração de Empresas pela Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo – FECAP. Atua em treinamentos com foco em desenvolvimento de pessoas, líderes e equipes.

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