Personagem

Ô Abre Alas!

O título da letra, composta por Chiquinha Gonzaga, “Ô Abre Alas”, marchinha datada de 1899, não deixava dúvidas, há muito que a alegria pede passagem. E, todos os anos, o grito se repete no carnaval. A grande festa popular no Brasil atrai pessoas de todas as idades, numa energia incomparável para celebrar o reinado de Momo. O Afinaidade ouviu foliões 60+, que guardam na memória a experiência de velhos carnavais.

Desfilar, emoção que não se mede

“Inesquecível foi desfilar na Escola de Samba Vila Maria, agremiação da Zona Norte paulistana que, em 2016, homenageou a cidade litorânea de Ilhabela, berço de meus antepassados. Assim, enquanto atravessava a pista, naquela que era a minha estreia na avenida, a emoção veio à tona, porque a cidade tema do samba-enredo abriga quatro gerações da minha família. Me agradou muito também o protagonismo que cada sambista conquista, ao se entregar às evoluções com dedicação máxima, além da alegria e da união contagiante do conjunto da escola. É uma sensação única e tão individual que só dá para ter a exata noção vivendo a experiência. E, seja qual for a idade, todos que tenham o desejo de participar de um desfile carnavalesco com esta imponência, não devem pensar duas vezes, basta se inscrever, ensaiar na quadra da escola, adquirir a fantasia e cair no samba. Em especial na longevidade, desfilar é exercer a liberdade, num ambiente democrático, ético, de extremo respeito e de visibilidade para os grisalhos”.

Maria Cristina Fazzini Brocchieri


Byron “Xará” Freire Jr., nos anos 70, fantasiado de “Vietcong”, e nos anos 80, “Pra lá de Bagdá”

Debut de carnaval

Meu primeiro carnaval num salão de baile, à noite, depois de alguns anos de matinês no EC Banespa e no Ginásio do Pacaembu, foi em 1959, no Clube Piratininga, todos em São Paulo. Naquele ano, minhas irmãs mais velhas resolveram me levar para “debutar” no baile do clube, que ficava no 26° andar de um prédio da Rua Formosa, no Vale do Anhangabaú. Mas tinha um pequeno problema: Eu tinha 13 anos e a entrada era só para maiores de 16. Mesmo assim, como eu não era muito baixinho, elas acharam que dava pra arriscar… Uma calça e uma camiseta brancas, um bonezinho de marinheiro, bigode e costelas “pintadas” com lápis de maquiagem poderiam ajudar… Porém, elas sabiam que para chegar ao salão do clube, tinha que tomar um elevador e o ascensorista, que também controlava o acesso dos foliões, com certeza iria perguntar a minha idade. Eu, claro, diria: “16”. Mas e se ele, ao invés de perguntar a idade, perguntasse “em que ano” eu nasci? Que eu nasci no final de 1945, eu sabia de cor, mas fazer as contas, na hora, em que ano eu deveria ter nascido pra ter 16, com toda a emoção do momento e ainda com um monte de gente olhando pra mim, ia ser meio complicado. Então elas resolveram “me treinar”… E assim foi, por alguns dias: “Que ano você nasceu?” E eu respondendo: “43”… Até que chegou a tão esperada noite. Eu, de marinheiro, bigode e costeleta, já me sentindo “o tal”, na fila do elevador, concentrado, pensando… “43”. Chegou a nossa vez. Com o enorme elevador já quase cheio, entramos. Antes de fechar a porta o dito cujo ascensorista olhou pra mim e perguntou: — Quantos anos você tem? Não preciso nem dizer o que respondi… Mas me lembro bem que, com exceção das minhas irmãs, todos riram e o ascensorista, um senhor já de idade, também sorrindo, apertou o botãozinho de número 26…

Byron “Xará” Freire Jr.


“Pérola Negra mora no meu coração”

Maristela Bignardi desfilou na pista e foi destaque no carro alegórico da Pérola Negra, escola que mora em seu coração

“Sou uma paulistana que sempre curti carnaval. Na adolescência, não perdia as matinês no Tênis Clube, no bairro da Aclimação, em São Paulo. Já adulta, passei a crer que Escola de Samba tem a mesma percepção de um time de futebol: a gente nunca muda e sempre mora no nosso coração. E é assim comigo quando se trata da Pérola Negra, uma das principais da capital paulista, fundada em 1973, a partir da fusão do GRES Acadêmicos de Vila Madalena e o Bloco Boca das Bruxas. Nessa escola desfilei pelo menos uns sete anos. A primeira vez foi em 1979. Era como se eu estivesse participando de uma peça de teatro ao ar livre. Maravilhoso!!! Já nos anos 80, fui destaque em um carro alegórico que tinha ao centro a presença de um famoso palhaço. Não tenho certeza do nome dele, mas acho que era o Torresmo. Havia também uma ala de dezenas de foliões fantasiados de palhaços. Deslumbrante. Na Pérola Negra havia a adesão de muitos jornalistas. Houve um ano que a nossa ala tinha mais de 40 profissionais desfilando e quase todos os fotógrafos nos conheciam, porque a maioria trabalhava em jornais. Era uma festa e muitos cliques! Tenho orgulho desta fase da minha vida. De todas essas lembranças o destaque vai para meu amigo Pasquale Nigro, morador da Vila Madalena, compositor e autor do Hino da Pérola Negra que até hoje é cantado por seus integrantes. O refrão é assim:

Venha você verá que vale a pena; Chegar na Vila Madalena; E ver o povo sambar feliz”

Maristela Bignardi

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