Por: Paulo Atzingen*

Era fevereiro de 2026 quando fui ao aniversário de Antônia Capelli Rugeri, avó de meu amigo Denis Rugeri. Ela comemorava 100 anos de vida. Nasceu em Itápolis, Distrito de Nova América. Chegou em São Paulo em 1959.
Durante a festa não consegui conversar com a aniversariante. Filhos, filhas, netos, bisnetos, tetranetos, sobrinhos e sobrinhas disputavam a atenção de Antônia. Foi possível, sim, tirar umas fotos com e só depois, com a ajuda de sua filha, Estela, entrevistei-a. Falamos de diversos assuntos, mas não toquei em política, nem futebol, religião um pouco de lado. Recordamos a saudade de brincadeiras, de criança, heranças, leituras e de sua própria festa preparada por seus filhos, netos e bisnetos.
Antônia sente saudade de seus pais e de seus irmãos, quando vivera em Itápolis, mas já tem a consciência de que eles não existem mais.
Antônia contou-me, pela manhã, que havia levantado um pouco melancólica. Era o dia de seu aniversário, mas que aos poucos esse sentimento foi dando lugar a outro que não soube explicar. “A festa foi boa, apenas não consegui escutar tudo que me disseram, mas deu para cantar o parabéns e fiquei feliz porque os amigos e parentes todos apareceram”… No mesmo dia, ela lembra, que a sua comunidade da igreja apareceu em sua rua e, tantos conhecidos como desconhecidos, vieram celebrar seu aniversário. “Senti-me profundamente agradecida. Fui à rua e ali permaneci por um bom tempo, acenei a meus irmãos em Cristo”, disse-me.
“Tenho saudade dos meus pais, dos meus irmãos, mas já não estão mais aqui. Já se foram todos para o céu”.
Filhos e tataranetos
“Tenho dois filhos, o Joel e a Maria Estela. Após 11 anos, nasceu a Maria Estela. O Joel, agora, é pai de três filhos, meus netos: uma menina e dois meninos. Sou avó de três bisnetas e aguardo o nascimento de uma tataraneta”.

Roupinhas de Boneca
“Eu gostava muito de cozinhar… e gostava muito de… de costurar… desde cinco anos… e eu, escondida, pegava a linha, a agulha e a tesoura… da minha mãe… e… e achava a roupa no… no depósito de lixo… lá no rio eu lavava… aqueles trapos… e depois eu fazia roupinha de boneca…”
“O livro que eu gostei muito de ler… foi o Pássaro Ferido (de José Messias). Todas as partes da Bíblia. Acho muito interessante o livro de Jó, porque ele sofreu muito, mas nunca negou o amor que tinha por Deus”.

“A gente era tão pobre que não tinha livros, o que a gente possuía era do meu pai, que ele que trouxe da Itália. Na época, a gente achava qualquer pedaço de jornal, limpava, lia e para escrever a gente riscava direto no chão”.
Brincadeiras
“Brincadeira… a gente brincava de roda, porque nós éramos uma porção de criança. Aí a gente brincava de roda e falava assim… Corre lenço… cadê meu lenço? Corre cipó na casa da avó. Corre cotia na casa da tia. E ia rodando… uma pessoa com lenço na mão… e as outras todas fazendo uma roda dando as mãos. Aquela criança que distraía… Ele jogava o lenço… e aí ela tinha que ficar… no meio da roda. Como se fosse uma prisioneira”.
No dia em que foi comemorado os 100 anos de Antônia, senti-me como integrado à família. Era como se o tempo nivelasse todos para uma mesma condição, a de que somos únicos na construção de nossa história, que pode ser longa, rica e cheia de significado, como a de Antônia.
* Paulo Atzingen é jornalista e escritor com seis livros – entre contos e poesia – publicados
Crédito da foto: Paulo Atzingen

