Comportamento

Onde foram parar os retratos da parede?

Fotos dos antepassados, em preto e branco, algumas com efeito em vermelho aplicado sobre os lábios da figura feminina e no lenço de cetim, ajeitado na lapela do paletó do patriarca. Ou registros de casamentos, batizados e aquelas poses de recém-nascidos em ângulos diversos, de fazer inveja a qualquer ‘Bebê Johnson’ – todas penduradas na parede da sala. Os convites de aniversário dos pequeninos, sempre seguidos de seu semblante estampado no pequeno pedaço de papel. Onde foi parar a imagem da viagem memorável de férias em família, que ficava no aparador, bem à mostra na porta-de-entrada das casas? Se hoje o celular permite mil clicks, retoques mais elaborados que enchem de vaidade o ser fotografado e inundam de ilusão o imaginário de uma imensurável plateia de seguidores, o retrato genuíno de pessoas e momentos inesquecíveis vai empalidecendo….

Tudo vai sendo armazenado em arquivos virtuais, na nuvem ou sei lá onde. Os álbuns de datas importantes, como formaturas, não são mais vendidos em suaves parcelas, aos pais orgulhosos pela conquista dos filhos, substituídos por postagens efêmeras nas redes sociais. E os pequenos monóculos de plástico que, olhados contra a luz revelavam, num slide, a cena capturada.  Nada fica para a história, o tempo presente é estrangulado pelo momento seguinte. Que felicidade quando era lugar comum fazer uma foto na praça, em meio à revoada de pombos, trabalho à cargo de um fotógrafo lambe-lambe cuidadoso, empenhado em deixar as donzelas mais formosas e os cavalheiros mais garbosos. E quando chegou a câmera que produzia retratos instantâneos, uma espécie de xerox de pessoas? Havia, até então, somente o risco da imagem ‘evaporar’ do papel, pela duvidosa qualidade da revelação desses equipamentos. Uma espécie de boicote, que impedia de se perpetuar o momento e transformar o mesmo numa lembrança nostálgica. A tecnologia arrancou os retratos da parede, com a promessa quase que sagrada de trazer para a telinha do celular um aglomerado de fotos, que se acotovelam em memórias virtuais e que logo caem no ostracismo. Não há mais quadros de fotos pendurados pela casa e nem porta-retratos sequer para se remover o pó dos mesmos, aqueles que, quando melhor observados, eram capazes de arrancar um sorriso no canto da boca ou um suspiro de saudade. Hoje a autenticação com reconhecimento facial nada mais é do que a captura do rosto de cada um, mas utilizada para fins documentais e de segurança, sem a preocupação de armazenar nada para a posteridade.

Dedico essa crônica a quem ainda sente uma ponta de melancolia com o fim de hábitos como os aqui citados.

(*) Cecília Fazzini é jornalista e coeditora do Afinaidade

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