Personagem

De terapeuta à paixão pelos pincéis

Catarinense de nascimento, da cidade de Chapecó, local onde viveu até os oito anos de idade e só retornou 10 anos depois para casar, Rose Marie Grando da Silva tem 80 anos e é o que se pode classificar de um ser apaixonado. Pela vida, pela família, pela profissão de terapeuta à qual dedicou a maior parte de sua existência e pela atividade atual: pintar quadros. De suas mãos hábeis e com dose ampliada de inspiração surgem telas que traduzem sensibilidade, lembranças desde a infância e senso estético que salta aos olhos. Mais de 400 quadros levam a sua assinatura e, no momento, cerca de seis obras se encontram ainda em produção.

Do colégio de freiras – o Santa Marcelina – na capital paulista, para onde havia mudado com os pais, guarda saudades, boas lembranças e se recorda que, à época, pintara três pequenos quadros. Mãe de dois filhos, Rose novamente mudou de cidade, indo para Curitiba (PR) estudar psicologia, decisão tomada após a separação do primeiro marido. E, concluído o curso, o novo casamento com o parceiro com quem vive até os dias atuais.

A mente humana sempre a fascinou e a dedicação ao conhecimento na área que escolhera se distribuiu nos cursos e ensinamentos de mestres da psique. Mas a inclinação para as artes plásticas rondava Rose. “Minha irmã, Dalme, era advogada, doutora e professora universitária, mas gostava mesmo de arte, pois escrevia, fazia escultura e depois se dedicou à pintura”, explica, ao justificar a influencia que recebera dentro da própria família. Numa viagem à Paris, conta que comprara uma caixinha de tintas, com 36 cores, para presentear a irmã. Na volta ao Brasil, se deparou com a mesma vitimada por enfermidade e logo com a sua partida, que já completou quase três décadas. “Por ocasião de mudança de residência encontrei as tintas intactas, guardadas no fundo de uma gaveta”, relata.

As memórias da irmã e a inclinação para as artes manuais estimularam Rose a buscar o mundo dos pincéis com mais afinco. Com a caixinha de tintas da Dalme na bagagem de aprendiz, buscou por aulas de pintura.

Emoção que inspira

Um emaranhado de sentimentos e material a postos, a veia artística de Rose se fez mais e mais presente. Ela relata que seu trabalho é fruto de técnica associada à intuição, numa pintura inclinada ao gênero modernista e que as muitas paisagens, característica marcante de suas obras, brotam do seu imaginário. “Sempre contei com o incentivo da minha família e participava de exposições”, acrescenta.

Sobre o processo de criação, Rose frisa que tudo é inspirado nas suas emoções. “Até hoje olho uma tela em branco e começo a conversar com ela, antes das primeiras pinceladas”. Com a criatividade à flor da pele a artista, que hoje divide a rotina com o marido entre dois apartamentos – o da capital paranaense e o outro no Rio de Janeiro – cidade onde se sente igualmente acolhida, segue a trajetória com a pintura. Entre suas obras, das quais transbordam originalidade, constam telas que recebem tule sobre a pintura, permitindo que sejam observadas através da trama do tecido sobreposto. No acabamento, um selador em spray empresta brilho à superfície, com a trama sobreposta à cena do quadro.

Rose sintetiza que o estado de espírito dita o estilo de seu trabalho. “Influencia nas cores e na disposição dos elementos no quadro, quando estou muito feliz o pincel se torna mais solto”. Na concepção dela, ainda, arte não é só pintura. “No Rio tem um gari que recolhe peças no lixo e começou a criar obras. Ele restaura e cria peças lindíssimas”, salienta.

A octogenária se mostra convicta de que idade não limita a vontade de colocar o talento à mostra. E aconselha a quem ainda não o fez: “acorde, você existe! concentre sua consciência na sua existência”. Para ela, o outro que está próximo consegue ouvir e aprender com a iniciativa que cada um possa ter. “Agradeço muito ao Universo por me brindar com esta percepção, ler o entorno como ele realmente é. Ele, o Universo, é completo e absoluto, quem está fora é você”, acrescenta.

Intuição e técnica combinadas nas telas

A exposição mais marcante

Em outubro de 2025, Rose foi agraciada com uma exposição inaugurada e que teria significado especial no caminho das artes plásticas. Seus quadros ganharam espaço na Casa de Cultura de Chapecó, que leva o nome de sua irmã – Dalme Maria Grando Rauen. Entre as obras em destaque na mostra “Fragmentos. Entre a Memória e a Imaginação”, a tela que a artista denomina “Lago Amarelo”, de 1 metro X 1 metro, que remete aos passeios rurais, realizados na infância com o pai e a irmã inseparável, num cenário em que havia uma área inundada com água amarelada. Outra obra retrata o sentimento fraterno, ao exprimir a mesma dançando no infinito.

Fotos: acervo pessoal

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