Por: Nina Marciano (*)
Doces de abóbora, figo, cidra, laranja azeda, cocada, manjar, ambrosia, ovos queimados. Para colocar nas caxetas de madeira, goiabada, marmelada, pessegada e os de araçá e de mexerica, que também eram preparados para serem cortados em pedaços. A geleia de mocotó levava dias para ficar pronta e era feita a partir de pés de porco. Na gastronomia, ainda tinham os inesquecíveis licores de jabuticaba e figo e os pratos salgados, entre muitos outros, o nhoque de bola, a lasanha e o quibe, este com carne moída e trigo misturados no pilão de pedra. Nos meus aniversários, quando criança, na hora do recreio ela chegava na escola levando um bolo com cobertura de suspiro, decorado com morangos. Minha mãe era uma verdadeira chef. Tudo que fazia era gostoso, saboroso e delicioso.
Ela nasceu no dia 18 de abril de 1914, em Piedade, interior paulista, e ali viveu até seus 95 anos, quando partiu. Filha de pai imigrante libanês – com quem, na adolescência, trabalhou em seu armazém de secos e molhados – e mãe piedadense, nascida e criada na roça.

Áurea Elias foi alfabetizada e estudou alguns anos na chamada Escola Reunida, a única existente na cidade. Entre seus colegas de classe, o menino Antonio Marciano, de origem italiana, 2 anos mais velho que ela, muito tempo depois foi o pretendente escolhido. Se casaram em 19 de dezembro de 1931 e tiveram 10 filhos. Dois partiram logo após o nascimento e 8 foram criados em um lar onde só cabiam disciplina, educação e muito amor, além de flores.

Para a época, sempre foram muito avançados. Meu pai adorava livros e os comprava com frequência. Coleções de Machado de Assis, Monteiro Lobato e outras como Tesouro da Juventude, O Mundo da Criança, enciclopédia Barsa, exemplares do Clube do Livro e Saraiva enchiam as várias estantes da casa. Minha mãe sempre foi muito vaidosa. Quando começaram a aparecer os cabelos brancos, fazia questão de pintá-los de preto. Se maquiava e se perfumava com frequência e usava joias, principalmente os inseparáveis brincos e colar de pérolas.
Além dos dotes culinários, sempre gostou de trabalhos manuais. Bordava muito bem e aprendeu corte e costura. Na máquina Singer, fez peças lindíssimas, para ela e as filhas e chegou a ser premiada pelo curso que frequentou. Eu mesma devo ter sito uma das meninas mais bem vestidas da cidade. Minhas roupas tinham detalhes de fitinhas, rendinhas e bordados e eram criações de uma verdadeira modista.

Seus talentos e aptidões foram muito mais além. Acompanhava meu pai em todas as atividades. Nas caçadas, no meio do mato, no vizinho município de Tapiraí; na natação, na piscina do clube de campo; e nos jogos de tênis. Do tênis preciso falar mais. Meu pai mandou construir quadra apropriada, comprou um livro para aprender a jogar, ensinou minha mãe e vários amigos e fundaram o Piedade Tênis Club. O grupo se reunia para praticar, participar de competições e de desfiles. O maior orgulho foi aceitar o convite para integrar as delegações esportivas do interior do Estado nas inaugurações do Estádio do Pacaembu, em abril de 1940, e do Clube Sírio Libanês, na capital.
Com os filhos criados, minha mãe ainda decidiu trabalhar fora. Foi escrevente do 2º Tabelião de Notas, em companhia do meu pai, que era tabelião.
Católica praticante, foi batizada, crismada, fez primeira comunhão e se casou na então Igreja Matriz de Piedade, hoje Basílica Menor. Devota de Santo Antonio, durante muitos anos foi responsável pelo altar do santo. Todo sábado ia limpar, trocar as toalhas e as flores dos vasos. As ruas da cidade começaram a ser enfeitadas para a procissão de Corpus Christi, graças a ela. Pioneira na arte de criar verdadeiros tapetes de pó de serra tingido, passava horas cobrindo os então paralelepípedos da rua da nossa casa.

Todas essas lembranças vieram à tona para homenageá-la, nesta véspera do Dia das Mães. Onde estiver, mãe, sinta-se abraçada.
(*) Nina Marciano é jornalista e coeditora do Afinaidade

