Eles são observadores, habilidosos, autodidatas e com disposição de sobra para efetuar reparos e manutenção em suas próprias casas, assim como na residência, no automóvel, num eletrodoméstico etc. de familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos. Longevos que, mesmo depois da aposentadoria e independente da atividade a que se dedicaram na fase ativa de sua vida profissional, têm energia para outros papéis. Prova disso é que se transformam no que modernamente se denomina “marido de aluguel”. Embora a referência seja masculina, também há mulheres que seguem nessa trilha. A função tende a ser remunerada, mas o AFINAIDADE ouviu dois representantes da terceira idade que, de forma totalmente voluntária, arregaçam as mangas, quando se deparam com uma torneira pingando, parede para pintar, quadro para pendurar, alguma ação social entre outras tarefas de toda ordem e complexidade. Confira os relatos:

ROBERTO AGNELLI – 73 anos, paulistano, atuou como Administrador na Área de Cargos e Salários – Recursos Humanos, aposentado desde 2003.
“Desde a infância sempre ajudei meu pai em tarefas, principalmente pintura. Quando chegava o final do ano, religiosamente, ele pintava toda a casa em que morávamos. Deixava para mim as partes mais baixas, como rodapés e os chapiscados de cimento, ao redor da casa, pintados com brocha devido à aspereza da textura. Tínhamos muitas ferramentas e invariavelmente havia coisas a fazer: regar canteiros na horta, carregar terra com carrinho de mão, consertar alguma cerca etc. Procurava acompanhar a rotina de meus familiares em tais atividades. Por contarmos com poucos recursos financeiros naquela época, a criatividade era importante. Fazer pipas por exemplo: usávamos o bambudo nosso quintal, vendíamos latas para o ferro-velho para comprar papel de seda, a cola era de farinha e a linha e as tiras de pano para rabiola minha mãe fornecia, pois costurava.
Fui crescendo, conhecendo e desenvolvendo algumas habilidades manuais. Instalando chuveiros e trocando suas resistências; confeccionando peças em madeira: estantes, pequenos objetos e até um armário; substituindo vedantes em torneiras etc. Não frequentei qualquer curso técnico específico, tudo que faço se deve à experiência de vida, guiado pela curiosidade de saber como as coisas funcionam. Continuo a ajudar, quando solicitado, principalmente parentes, deixando claro que assumo tarefas mais simples, reservando aos profissionais das áreas específicas os trabalhos mais técnicos.
Em 2004/2005 fiz um curso de locução na escola Rádioficina, e em 2007 entrei como voluntário na Fundação Dorina Nowill para Cegos, na área de Livro Falado, gravando quase 50 livros para os deficientes visuais. Estive lá por 13 anos. Foi uma experiência bem interessante. Também gravei, sem compromisso, voz para o trabalho de um colega músico, Rodrigo Chenta, que editou um EP (Extend Play) chamado CONCEPÇÃO, em 2016, remixado em 2022. (disponível no site: https://www.rodrigochenta.com)”.

CELSO CAMPOPIANO – 74 anos, paulistano, trabalhou no comércio no ramo de ferro e aço, na venda de bobinas, chapas, retalhos de ferro, aposentado desde 2022.
“O que me motiva, em primeiro lugar é fazer um serviço bem feito, pra ver a satisfação das pessoas com o problema resolvido, em segundo é ter a sensação de dever cumprido.
Aos 18 anos fui trabalhar com um senhor que montava estande nas feiras do Anhembi e, aos poucos, aprendendo e pegando experiência com pintura, elétrica, hidráulica, colocação de papel de parede e carpete etc. Fazíamos também serviços residenciais e comerciais. Na verdade, o contato com esses profissionais de gabarito é como uma pós-graduação, a gente aprende muito, alguns macetes que nem passavam pela cabeça.
Cada tarefa é um aprendizado que nenhum curso consegue ensinar, além dos vários obstáculos e situações novas. É como aprender a dirigir, a autoescola transmite as regras, mas a habilidade no trânsito, só o tempo ensina.
Segundo o provérbio: Em casa de ferreiro o espeto é de pau. Não tenho essa paranoia de tudo certinho, nada fora do lugar, mas quando necessário faço com capricho, não gosto nem um pouco de quebra-galho”.
Fotos: acervo pessoal

