Por Fernando Porto Fernandes*
Medo de: adoecer, sofrer, se acidentar, morrer, envelhecer (mal), fracassar, perder o ente querido, e até de amar… Se cada pessoa pudesse eleger seu principal temor na vida, que a paralisa ou dificulta sua evolução, qual seria? Ou melhor, quais seriam? Afinal, como surge o medo em cada ser humano? O que move essa emoção, que pode se tornar um sentimento mais duradouro, ao ser processado e consolidado com memórias ruins, que disparam pensamentos disfuncionais e persistentes?
O medo nos limita, mas também – e isso é uma boa notícia – nos impulsiona a agir positivamente para um objetivo. Basta ter um propósito de vida, ou um sentido conforme já escrevia e ensinava o psiquiatra Viktor E. Frankl, criador da logoterapia, uma abordagem existencialista da psicologia. Da mesma forma, outro psiquiatra Carl G. Jung, da psicologia junguiana, apontava o caminho de enfrentar o medo do futuro com uma energia criativa exatamente num período da crise, como o da chamada meia idade. É fato que o medo a ser combatido é aquele que nos paralisa, nos limita. No entanto, o grande paradoxo é aceitarmos internamente essa sombra, ressignificando seus aspectos sombrios. O medo passa, então, a se tornar um degrau para nossa escalada evolutiva, seja tanto em grandes propósitos que o ser humano estabelece, até pequenos objetivos que tragam sentido para o dia a dia.
Existem mecanismos de defesa do chamado “sistema nervoso central” de cada ser humano, especialmente na área cerebral conhecida como sistema límbico (ou integrador) que reagem positivamente aos perigos externos. O medo, a partir dessa reação interna, nos impulsiona a ações poderosas.
O risco de morte como pulsão de vida
O medo da morte como “o instinto mais poderoso do espírito”, faz com que o ser humano se mova “mais rápido que o impossível” e lute “mais que o possível”. Podemos ver tais façanhas em registros históricos, desde soldados acuados numa batalha, que percorrem quilômetros por horas e sobrevivem a bombardeios incessantes, até atletas que batem recordes em esportes radicais no qual o mínimo vacilo é fatal (esquiadores, surfistas de ondas gigantes, paraquedistas, por exemplo).
Estudos da psicologia positiva atribuem o nosso viés negativo para situações críticas, o famoso “Vai dar ruim” para esse instinto de sobrevivência. A preparação constante para prevenir o pior. O problema não está nesse poderoso mecanismo de alerta para perigos externos reais de nossa existência, mas sim quando soa esse alarme biológico-mental para perigos imaginários ou possibilidades futuras trágicas e não comprováveis. Vale lembrar que, nos dias de hoje, um desequilíbrio emocional, causado por evento traumático, pode bloquear a “luta ou fuga” da pessoa e desencadear um medo paralisante.
No mundo moderno, repletos de estímulos estressantes em cidades grandes, esse alarme cerebral do medo está constantemente hiperativado e disparado por uma espécie de sirene local (a amígdala cerebral). Estamos em constantes alertas contra acidentes automobilísticos, atropelamentos, assaltos e barulhos. Isso explica o surto de ansiedade atual.
Reduzindo os medos imaginários
O grande desafio da psicologia comportamental é promover essa regulação emocional de cada paciente, altamente ansioso – e, algumas vezes acometido por ataques de pânico – dos medos adquiridos, e incrustados em suas memórias de longo prazo (acumuladas em outra área cerebral, o hipocampo). Seja por uma criação negligente e inadequada na infância ou por fatos traumáticos da vida. Trata-se de uma reeducação cerebral que opõem fatos aos pensamentos disfuncionais de ameaças imaginárias. Para fobias específicas, como medo de dirigir ou andar de avião, há técnicas eficazes de dessensibilização sistemática que buscam a exposição gradual aos eventos fóbicos até a superação do medo.
Outras abordagens da psicologia mostram eficácia no enfrentamento a medos menos paralisantes, mas que provocam estados de angústia constantes, alta ansiedade e depressão, pelo “medo do futuro”.
Em primeiro lugar, Victor E. Frankl cita uma ação ou obra que crie sentido. Em segundo lugar, procurar um significado não apenas no trabalho, mas também no amor, vivenciando algo ou encontrando alguém. E o terceiro caminho: “Sempre que estivermos diante de uma situação que não podemos modificar, existe ainda a possibilidade de mudar nossa atitude diante da situação, de mudar a nós mesmos, amadurecendo, crescendo além de nós”.
O medo de envelhecer: uma crise positiva?
O processo de envelhecimento natural do ser humano traz, em boa parte da população, não só o medo de perdermos nossa potência físico-mental, no auge da juventude, mas traz implícito o medo do fim da vida. Quando a pessoa tem 20 e poucos anos, olha para um futuro de 60 ou 70 anos, que é visto quase como uma eternidade. Em contrapartida, a chegada da meia idade (que pode variar psiquicamente de 50 a 60 anos), diminui consideravelmente a régua de anos à frente, aumentando o temor da finitude da existência. Essa crise representa, para muitas pessoas, um início de decadência pessoal. Mas por que considerar desta forma e não como uma oportunidade de reexaminar nosso papel na vida e buscar uma evolução? É o que propõe a teoria de Carl. G. Jung, criador da psicologia analítica, que definiu essa fase como Crise de Metanoia, um momento de crise existencial da segunda metade da vida de cada ser humano, quando há uma autêntica busca da resolução de conflitos internos e, consequentemente, de autorrealização.
Por meio da psicoterapia junguiana, cada pessoa buscará, nesse período da vida, um crescimento interior para superar os desafios do mundo. É o momento em que ouvimos o “chamado da alma” e seguimos o nosso real propósito de vida já que, na primeira metade da existência, somos influenciados por nossos pais em nossas escolhas – graças às relações primárias de formação do ego. Respondendo ao chamado de alma, cada ser humano inicia sua jornada única e própria, que o mitólogo Joseph Campbell definiu como a “jornada do herói”. É muito comum que, ao tornar-se consciente de seu propósito, a pessoa mude seu modo de vida e carreira profissional.
Ao atravessar a Crise de Metanoia, a passagem do meio, ninguém pode dizer aonde a jornada irá nos levar. A executiva de multinacional resolve seguir a paixão pelas artes plásticas, o marceneiro estuda direito e se forma advogado, a médica resolve lecionar etc. No entanto, sabemos apenas que precisamos aceitar a responsabilidade por nós mesmos.
Jung sugeriu que precisamos nos indagar se estamos ou não ligados a algo infinito. “Esta é a poderosa pergunta de sua vida… Só valemos alguma coisa por causa do essencial que personificamos e, se não personificarmos isso, a vida será desperdiçada”.
*Fernando Porto Fernandes é psicólogo, jornalista e consultor de comunicação, com especialização em Neurociência pela PUC Campinas e CBI of Miami.


