Personagem

“Tenho muito orgulho de ser pioneiro em difundir o alpinismo no Brasil”

Há muitos anos, o paulistano Silvio Martins trocou seu sobrenome e passou a ser conhecido como Silvio Alpinista. O libriano, que nasceu em 10 de outubro de 1951, é espeleólogo, palestrante, explorador, montanhista, alpinista e guia de alta montanha.

Participou de diversas missões na Antártica como alpinista do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), exercendo papel primordial como responsável pela segurança de militares e pesquisadores, além de liderar equipes nos lugares mais remotos e perigosos do continente gelado.

Silvio, é membro do CAP (Clube Alpino Paulista), embaixador da WAS (World Adventure Society) para Antártica e Peru, e socorrista treinado pela Cruz Vermelha.

Entre outras atividades, ministra cursos corporativos, faz palestra motivacional, e dá treinamento em paredes de boulder (escalada), com o objetivo de trabalhar espírito de equipe, concentração, disciplina, comunicação, tomada de decisão e autocontrole.

É fundador da Climb Viagens (Climb Tour Operator / Climb Expedições), operadora especializada em turismo de aventura, focada em experiências personalizadas, criada em 1985. Oferece roteiros que incluem escalada esportiva e viagens de natureza. A Climb organiza expedições de ecoturismo para cavernas e montanhas, dentro e fora do Brasil, e lugares inóspitos como a Antártica.

Em entrevista exclusiva ao Afinaidade, Silvio Alpinista fala de sua trajetória, recheada de experiências incríveis e de suas muitas aventuras.

Em uma das missões, na Antártica

– Quando e como você se tornou um alpinista? Por quê?

Quando criança, assistia a série chamada Expedições Famosas, que abordava grandes experiências, conquistas e montanhas. Também gostava de ler JúlioVerne e Monteiro Lobato, entre outros escritores. Em 1976, fui morar nos Estados Unidos, trabalhei com um amigo e aprendi a escalar na rocha, na Califórnia. Ele era amigo do Domingos Giobbi, fundador do Clube Alpino Paulista (CAP). Ao voltar ao Brasil, contatei o CAP, onde me aperfeiçoei e parti para a prática também no gelo. Esse clube dava suporte técnico às operações do Brasil na Antártica. Cheguei a ser presidente do CAP, por dois anos, e participei de diversas expedições do Programa Antártico Brasileiro. Uma longa e gratificante história. Tenho muito orgulho de ser pioneiro em difundir o alpinismo no Brasil.

Refúgio Agulhas Negras/Silvio Martins

– Você encontra dificuldades para praticar essa atividade? Se sim, como contorna essas situações?

Atualmente não tenho dificuldades. Atividades na natureza exigem, acima de tudo, planejamento, logística, pensar em todos os detalhes, principalmente no que pode dar errado e já imaginar o que faria para consertar a situação. Avisar para onde vai, com quem, que tipo de comunicação está levando, roupas adequadas, seguro aventura, data de ida, de volta, detalhes, detalhes…

Na trilha inka para Machu Picchu, com grupo de 20 pessoas, membros de uma escola estrangeira, fomos atingidos por uma chuva fora do comum, o que não permitiu que o acampamento estivesse pronto no final do dia, para descanso e alimentação. Estávamos perto das ruinas de Runkurakay, e nesse sítio havia uma grande caverna, resultado de desmoronamento. Conseguimos levar o grupo até esse lugar, servir o jantar quente e descansarmos, até passar a chuva. Era a primeira experiência desse porte, na natureza, para o grupo. Importante ressaltar que, em todos os momentos, os participantes sentiram a segurança da organização da aventura. Eu sabia exatamente onde estávamos e que teríamos esse abrigo. Logística, comunicação por rádios, disciplina e equipe coesa fazem toda a diferença.

Hoje em dia existem lojas especializadas em equipamentos para todo tipo de viagem e aventura que se possa imaginar, o que torna muito mais fácil a organização de uma aventura ou viagem na natureza.


– Essa experiência é movida a desafio e aventura. O que você diria a um 60+ interessado em prática similar?

Como socorrista treinado pela Cruz Vermelha


Essa questão da idade para mim é relativa. Tenho 74 no passaporte, mas pelas coisas que faço acho que estou sempre na faixa dos 17 pra cima.
Acredito muito no poder da mente sobre nosso corpo, cabeça boa, corpo são. As pessoas podem fazer qualquer atividade que dê na telha, independente da idade. Mas desde que sigam as questões de segurança, organização, procurar empresas confiáveis e pesquisar bem. Tudo é uma questão de querer.

Caminhadas em florestas, montanhas, academias de escalada, correr na praia, tomar sol, colocar o corpo em movimento, agora é o momento certo para se começar ou retomar. Importante é sair do sofá.

Eu treino escalada esportiva na Academia 90 Graus, a pioneira em São Paulo. Tem paredes baixas com colchões, altas com segurança por cordas e instrutores.
É preciso usar o corpo, que é uma ferramenta maravilhosa. E para isso não há idade. Tem que ter força de vontade, foco, disciplina e se permitir viver, sair do lugar comum, da mesmice…

A prática de atividades na natureza proporciona o domínio do medo, consciência corporal, equilíbrio, concentração, movimenta o corpo todo, trabalho em equipe e liderança.

Temos que nos permitir, acreditar que conseguimos fazer qualquer coisa, para pessoas da nossa idade, quanto mais coisas diferentes e inusitadas fizermos, mais células nervosas serão criadas, de uma maneira rápida, o que prolonga nossa saúde mental.

– Que características são fundamentais para quem deseja seguir esse caminho? E onde praticar essas atividades?

Características: vontade de praticar, foco e a consciência de que se trata de um esporte em equipe. É fundamental ter ousadia, propósito, esforço, criatividade e, principalmente se preparar fisicamente e acreditar em você mesmo.

Para os iniciantes, há academias (eu, inclusive, cheguei a ter uma), que transmitem todo conhecimento de escalada esportiva aos alunos. Existem lugares na natureza onde se pode escalar, como a Pedreira do Dib, em Mairiporã (SP). Mas como pioneiro na divulgação para brasileiros para fazer caminhadas, escalar e explorar cavernas, cito dois lugares que marcaram muito minha vida são: Parque Nacional do Itatiaia (RJ e MG), um dos lugares mais bonitos do Brasil, para pessoas 60+; e o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira – PETAR (SP).

Ou, ainda, ir para o Refúgio Agulhas Negras/Silvio Martins, o meu refúgio. Fica em Itatiaia, numa região de 2.222m de altitude, com uma cabana rústica, que abriga 10 pessoas. Para chegar ao local, fazemos uma trilha linda e fácil de 2 quilômetros. Temos nossa própria montanha, de 2.530 m. Contemplação total no meio do silêncio absoluto da Serra da Mantiqueira, que renova todos nossos sentidos.

Fotos: acervo pessoal

climb.tur.br

fb – climbtour.operadora

@silvioalpinista

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