Personagem

A transcendência da leitura

Por: Martín Lerner*

Tenho mais de mil livros, repartidos em várias bibliotecas dentro da minha casa. Ao longo da minha vida já li praticamente todos. Sim, os mais de mil livros. Leio na cama, em ônibus, avião, nas salas de espera de consultórios, nas bibliotecas e em qualquer outro lugar confortável. Creio que o melhor momento para ler é quando estamos acordados, porque dormindo não conseguimos.

Minha paixão são as palavras. Eu, um homem, gosto muito de algo feminino. Mots, parole, words, palavras. Elas são as boas mulheres que nos permitem dialogar, escrever, contar histórias.

Meu nome é Martín Lerner. Martín vem de Marte, o deus da Guerra, e a primeira letra do meu sobrenome foi quem me levou pelo caminho dos textos: L, de ler, de literatura, de letras, de livros. Sou porteño, nasci em Buenos Aires – cidade com um grande porto, por isso o gentilício – e onde há muitas livrarias, consequentemente o hábito da leitura sempre foi estimulado. Assim, comecei a ler desde pequeno.

O primeiro livro que tivemos na escola chamava-se “Upa”, escrito por Constancio C. Vigil, publicado em 1934 pela editora Atlántida. Como bom guerreiro, tive que lutar duro para vencer no mundo dos livros. Aprender a confiar em quais se tornariam os meus amigos e quais inimigos: descobrir os bons e os maus livros.

Na adolescência, li muitos romances policiais da coleção “Séptimo Círculo” da Editora Emecê, criada em 1945 por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, que durou até 1983. Eles lançaram centenas de livros de bolso de bons autores. Alguns deles foram escritos em parceria entre os dois, a quatro mãos: assinavam com o pseudônimo Honorio Bustos Domecq. Exemplo desse trabalho é o livro “Seis Problemas para Dom Isidro Parodi”, publicado em 1942.

O deleite de ler é uma experiência vital que nos completa interiormente. Com um livro viajamos sem sair do lugar. E durante um voo, se estivermos espremido entre duas pessoas e não conseguirmos dormir, a leitura fará com que as horas passem sem perceber. A alegria de defrontar-se com uma boa frase, nos faz esquecer esse exercício extremo de convivência forçada que temos que suportar durante horas e horas.

Estudei francês na Aliança Francesa de Buenos Aires, onde fiz o curso de Literatura. Nossas leituras incluíram os grandes clássicos e muitos escritores contemporâneos. E tive a felicidade de conhecer a “Encyclopédie de Diderot e D’Alembert”, um dicionário das ciências, das artes e dos ofícios. Esta grande obra, de 35 volumes, foi publicada no século XVIII, entre 1750 e 1772.

Ao longo dos anos fui lendo sobre outros assuntos, ampliando os meus pontos de vista.

Ler é aprender, e se exercitar neste ponto será positivo para ampliar a nossa educação. Lendo melhoramos a nossa instrução, pois a leitura é o melhor elevador social que ajuda a impulsar nossas qualidades. Começar a ler é fácil, o difícil é continuar com esse hábito.  Por isso minha sugestão é: não abandonem a leitura e tenham a certeza de que serão muito bem recompensados.

*Martín Lerner tem 76 anos, é argentino e mora no Brasil há 44 anos. Sua profissão de tradutor o possibilita ler muito, todos os dias e nunca se cansar desse hábito.

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