Comportamento

Em tempos de BETs, saudade das rifas da igreja

Cresci vendo meu velho pai adquirindo nomes na cartela de rifa da igreja, forma clássica de arrecadar recursos, junto aos fiéis, para alguma reforma ou construção no templo. Ele sempre assinava, de forma aleatória, no lugar das três filhas. Hoje vejo quão ingênua e saudável era aquela forma de tentar a sorte. E ela batia à porta do nosso lar, regularmente favorecendo minha irmã caçula, que faturou, em sorteios distintos, uma bicicleta aro 26, ovo de Páscoa de 5 kg e até um bezerro, que em seguida foi vendido, óbvio. O fato é que esse gesto beneficente não fazia “a vaca ir pro brejo” e nem era o chamado ‘conto do vigário’. O tempo passou e a sedução do “ganho fácil” deixou o singelo apelo da rifa da paróquia para trás e migrou para os chamados jogos de azar, tudo escancarado e se avolumando na velocidade da luz. Enquanto o jogo do bicho, bingos e até cassinos, proibidos no Brasil, perdiam espaço na cena nacional, uma invasão silenciosa começava a aguçar jogadores de todas as idades. E o que é pior, a fezinha poderia ser feita de qualquer lugar e a qualquer hora, sem nenhum tipo de dificuldade ou logística mais complicada. Uma nova era, a da jogatina das BETs – aposta em inglês – aliada ao acesso fácil que o mundo online proporciona, desembarcava na vida dos indivíduos como um míssil. Estatísticas dão conta de que as apostas pela internet atraem um público de 13 milhões de pessoas no País – mas este número tende a ser muito maior a cada dia. Embora as presas desavisadas desse tipo de cilada, que promete verter dinheiro na tela do celular sejam, em sua maioria, jovens, o Banco Central do Brasil estima que 2 milhões de apostadores pertençam à terceira idade, constatação da autoridade monetária a partir das transferências regulares para este tipo de plataforma. Em letras pouco graúdas, na publicidade em larga escala das BETs, há o aviso: o Ministério da Fazenda adverte que “jogo não é investimento”. E, definitivamente, não é. A ludopatia, incidência patológico em arriscar-se na jogatina, passa a ser questão alarmante de perda financeira, com a dilapidação do patrimônio e situações de subsistência que chegam à necessidade extrema.  Mas vai além, transformou essa legião de vítimas num caso de saúde pública. São frequentes os registros de aumento expressivo de doenças como depressão, ansiedade, distúrbio do sono, além do custo social da desagregação de famílias/grupos de amigos e isolamento social. O quadro se torna indiscutivelmente alarmante quando se tem notícia de que as BETs ocupam o terceiro posto no ranking dos vícios, atrás apenas do tabagismo e do alcoolismo. Para a economia do País o desastre é de proporções gigantescas, porque afeta o comércio e os serviços, pela retração no consumo, uma vez que as BETs atraem substancial parcela da poupança das famílias e retira de circulação do mercado volume considerável de moeda. Na Câmara dos Deputados tramita, há dois anos, o Projeto de Lei 4466/2024, que estabelece regras de proteção ao brasileiro sênior e mecanismos contra os jogos de azar e o vício em apostas digitais. Se aderir às BETs pode começar como uma brincadeira, simples passatempo e frenéticos cliques, o desenrolar desse tipo de aventura, ajudada pela conveniência da tecnologia, pode levar ao fundo do poço.  O que dizer, então, das consequências para aposentados, que amealharam bens, fruto do trabalho de uma vida inteira? Ídolos do esporte, artistas e os novos gurus do comportamento batizados de influencers que, invariavelmente, ostentam rostos bonitos, vida luxuosa e felicidade fake são os eficientes propagadores, à serviço desse tipo de roleta virtual. Eles, sim, e os donos das plataformas, são os favorecidos pelo sonho do dinheiro, às custas de uma conta lamentavelmente elevada a ser paga pela sociedade!

* Cecília Fazzini é jornalista e coeditora do Afinaidade

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