Por Jorge Julião*
Há 26 anos trabalhando com grupos 60+, sinto a importância das memórias afetivas fazendo parte de nossas lembranças. O mundo está mudando, nós também e a velocidade que a Internet impõe ao nosso dia a dia nem sempre nos completa.
Recentemente fui convidado pela psicóloga Maria Celia de Abreu a participar de um encontro para falar sobre a importância do cinema dentro das nossas vidas, para um grupo no IDEAC (Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico). Que delícia trocar experiências sobre o escurinho do cinema. Quantos cheiros, sabores, lágrimas, gargalhadas, desejos dividimos com a tela dentro de uma sala escura. Na vivência, falamos de atores, atrizes, personagens que despertaram paixões dentro do peito.
O primeiro roçar de mãos com o futuro namorado, o primeiro beijo, o primeiro chocolate colocado apaixonadamente na boca com olhar derretido pelo amado… Memórias que o cinema marcou.
“Play again, Sam…” quem não se emociona com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman no inesquecível “Casablanca”? Quem já passou por um amor maduro, jamais vai esquecer Meryl Streep e Clint Westwood, em “As Pontes de Madison” e seus silêncios tocantes de emoção. Mae West, trazendo uma sensualidade embutida em frases de duplo sentido: “Quando sou boa, sou ótima. Quando sou má, sou melhor ainda”.
Filmes que despertaram nossos desejos, gerando uma certa timidez no grupo, mas logo se dissipando com lembranças de William Hurt e Catleen Turner empapados de suor, quando ela fala: “Você não é muito esperto, não é? Gosto disso em um homem”. O silêncio no cinema era total. Nos encontros recheados de fantasias proibidas de Charlot Rampling e Dirk Bogarde em “O Porteiro da Noite”. Trilhas sonoras que até hoje nos encantam e fazem nossos corpos balançarem… “Os embalos de sábado à noite”, com um charmoso John Travolta e a melodia de “E o vento levou…”
O mais marcante da nossa reunião, que se tornou um grande bate-papo, foi trazer recordações para alguns, ao se abrirem para memórias que já estavam guardadas nas gavetas do tempo. Sabemos da importância do nosso envelhecer (ao frequentar o IDEAC, descobri um novo e orgulhoso sentido da palavra “velho”) onde o cuidar do corpo, da mente, ter curiosidades, hobbies, caminhar, dançar tudo fundamental para nos tornar 60+ interessantes.
Orson Welles disse no filme “A Dama do Cine Shangai”: a única maneira de evitar encrencas, é envelhecer! Queremos hoje muitas encrencas.
Espero que vários filmes aqui mencionados despertem curiosidade, pesquisa e vontade de assistir. Nesses anos todos trabalhando arte com meus grupos, onde sempre as mulheres são maioria, vou descobrindo que elas estão ficando muito mais interessantes que nós, homens. O envelhecer feminino hoje mostra mulheres empenhadas, curiosas e plugadas em um leque de possibilidades.
Olha aí, homens! Que tal em vez de ficar vendo replay de jogos de futebol e participar de mesas redondas futebolísticas chatas, trocar por um bom filme ou uma matinê, dentro de uma salinha escura de cinema? Pode ser bem mais atraente.
(*) Jorge Juliãoé ator, professor, diretor teatral e coordenador geral do Grupo Rádio Ilusão, cujo elenco reúne atores longevos. Ministra oficinas e vem se especializando no trabalho de pesquisa com alunos da melhor idade, na arte de representar. Participou de várias montagens teatrais, como ator e diretor. No cinema, atuou em: “Pixote, A Lei do Mais Fraco” roteiro Jorge Duran/Hector Babenco (diretor), o que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator Revelação – 1980, APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

Fotos: Acervo pessoal
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