Depois de atuar no segmento de Turismo e de conhecer 115 países,
assumiu sua melhor e genuína vocação e se tornou chef

“A primeira vez que cozinhei eu tinha 12 anos e era escoteiro. Estava acampado, a garotada toda com fome e percebi que o cara que trabalhava na cozinha não estava dando conta. Primeiro fiz um fogão de bambu e barro e preparei macarrão. Naquela época o macarrão era tão vagabundo que tinha uma goma danada. Não sabia que precisava colocar óleo pra cozinhar e que deveria lavá-lo depois de cozido. Apenas cozinhei, acrescentei algumas latas de sardinha e misturei. A garotada gostou, embora o resultado tenha sido fatias de macarrão, porque ficou tudo grudado e parecia mais um pudim. Mas todos estavam com fome e acho que comeriam até pedra.”
Quem diria que Neriton Vasconcelos se tornaria o famoso chef que hoje, com 81 anos, administra o seu recém-inaugurado e já bem-sucedido restaurante Clipper, na Vila Olímpia, na capital paulista.
De origem portuguesa, uma de suas muitas recordações da infância é ligada à comida. “Minha avó fazia aqueles bacanais gastronômicos, tinha tudo misturado.” Contudo, o carioca Neriton pretendia mesmo seguir carreira no campo das artes,o que o levou até a ter aulas de pintura. “Não prossegui porque o professor me aconselhou a desistir, afirmando que eu não tinha talento”. Decidiu buscar formação em escultura e fotografia, porém, tudo o que fazia não recebia a autoaprovação, mesmo tendo merecido menção honrosa em uma exposição de fotos da qual participou. “Até hoje fotografo, mas nada que eu possa ser um Sebastião Salgado ou parecido com ele, né?”

Turismo com sabor
Durante muitos anos, Neriton atuou no Turismo. Já havia trabalhado em comércio exterior, mas aceitou um convite e partiu para o ramo das viagens. Posteriormente, mergulhou no mundo dos cruzeiros marítimos e descobriu que esta seria a sua praia. Foi representante de grandes empresas do setor, viajou muito e conheceu 115 países.
Simultaneamente, dedicou-se ao seu hobby. “Cozinhar é uma forma de extravasar minha criatividade.” Começou fazendo sanduíches diferentes e logo estava pilotando forno e fogão, preparando jantar em sua casa para amigos e convidados.
“Quando surgiu a nouvelle cuisine, veio ao Brasil, representando Paul Bocuse, o chef Laurent Suaudeau, que considero o melhor de todos: pra mim ele é the best.” Com apenas 23 anos, no início dos anos 1980, Laurent chefiava a cozinha do restaurante Le Saint-Honoré, do Hotel Méridien, no Rio de Janeiro. “Comecei a frequentá-lo para aprender um pouco e ver como era a tão diferente nouvelle cuisine, que tinha o lado artístico: a apresentação dos pratos eu achava o máximo! Mas ia só uma vez por mês e nem levava minha esposa porque era muito caro e não podia pagar dois jantares.”
Neriton lembra que perguntava ao chef como preparava aqueles pratos, pedia pra lhe ensinar e começou a tentar reproduzir. “Não ficava igual, mas fazia para meus amigos e fui cozinhando cada vez mais”. Tempo depois, aceitou um convite do amigo que era responsável pela publicidade do restaurante Napoleon, na Vila Nova Conceição, em São Paulo: cozinhar lá num sábado para seus amigos. “Foi a primeira vez que entrei numa cozinha de restaurante. O chef do Napoleon ficou junto, seguindo minhas instruções. Deu overbooking: foram 95 pessoas, e só haviam 80 lugares.”
Cardápio do Titanic

A partir daí veio a ideia de fazer regularmente jantares em sua casa e na casa dos amigos. Posteriormente, outra ideia: abrir um restaurante. Como sempre viajou muito e conheceu a gastronomia ao redor do mundo, veio a indagação: por que não ter um estabelecimento totalmente diferente dos que existiam no Brasil?
“Comecei a fazer um menu degustação e só servia isso. Hoje todo mundo faz, mas eu fiz em 2005. Divulgava para os amigos e quem se interessava tinha de fazer reserva e já pagar. Foram 13 anos de sucesso absoluto no From the Galley, que também ficava em São Paulo, no Itaim. E no dia 15 de abril de 2012, 100 anos após o acidente do Titanic, reproduzi o mesmo cardápio do navio. O jantar para 24 pessoas foi um grande sucesso e servido em réplicas das louças que comprei nos Estados Unidos.”
Em 2018, Neriton vendeu o ponto e descontinuou as atividades. Mas o gosto de criar pratos com bem elaboradas apresentações nunca o deixou, por isso decidiu abrir o Clipper, definido por ele como ‘um restaurante com outra pegada, um pouco diferente, um popular chique, tipo bistrô, com apenas 10 mesas. No cardápio, o ‘PF do Tom’ e um almoço executivo com cinco opções à la carte. “Cada dia da semana um prato diferente faz parte do menu do almoço executivo. Não tem mais nada, só isso. Todo dia eu troco o menu.”
Em sua vida como chef, já consagrado, Neriton não se limitou a preparar pratos em seus restaurantes. Com muito orgulho, também exibiu seus dotes na TV, nos programas do Ronnie Von e da Ana Maria Braga.