Personagem

O que há por trás de uma autobiografia?

Eu me chamo Maria Vicentina Godinho Pereira da Silva, tenho 70 anos, natural e residente na cidade de Piedade/SP. Sou professora, casada, tenho três filhos e cinco netos. Sou cidadã orgulhosa de sua terra, agradecida e feliz pelas minhas escolhas. Eu, como mulher, transformei todas as oportunidades que romperam com certos paradigmas tão cristalizados. Lancei mão da persistência, vigor, razão e sensibilidade.

O desejo de escrever sempre esteve presente. Latente, cuidadoso e vivo. Da mesma forma, a espera pelo momento exato para escrever. Uma espera vagarosa que provocava o comodismo e a preguiça.  Sempre deixava para depois, na esperança de que um dia tudo pudesse se acalmar, que as peças se encaixassem no lugar exato e que a inspiração chegasse silenciosamente. Mera ilusão.

Percebi, que era uma questão de coragem: puxar o fio… e que fio!

Uma simples cadeira desencadeou uma avalanche de sentimentos. Assisti, calada e sozinha, a saída da cadeira de repouso dos meus pais da casa da praça Coronel João Rosa, 68, em Piedade, sendo arremessada para dentro do baú do caminhão de mudança. Em seguida, me deparei com aquela casa despida, sem a presença física dos meus pais, dos móveis, louças … uma devastação. Restavam sons que soavam na memória, cheiros profundos, marcas pelas paredes, cenas, sentimentos e a saudade cortante que penetrava pelos poros. O que fazer? Não poderia permitir que todo esse mar de emoções rolasse em vão. Chegara a hora. Naquele momento achei a tão esperada ponta do fio e decidi: vou escrever.

Planificar, foi um exercício para desvelar toda essa imensidão. Caminhei pelas recordações da minha infância e outras que chegavam sobrepostas e circunscritas num ritmo dinâmico. Os novos acontecimentos foram se entrelaçando com os mais longínquos, através de um diálogo revelador entre o espaço e o tempo.  Laços e nós, alegria e dor, euforia e apatia se mesclavam e conviviam com o desafio de ultrapassar essas paisagens com as palavras.

Nessa lógica, queria compartilhar, contribuir para uma nova perspectiva e apresentar um vértice ético da vida de uma mulher, nascida e criada numa cidade pequena do interior, no seio de uma família onde a obediência era rito e estudar era como religião. Uma menina com muitos sonhos e que sabia onde queria chegar.

Carregava, também, a ansiedade de narrar com fidelidade e transparência tudo que permanece vivo, que foi vivido e ainda vive em mim. Isto é, proporcionar um registro histórico e consciente de uma geração de mulheres que ocupou espaços que não eram oferecidos por direito. Essa era a maior propositura.

Sempre caminhei pelas árduas e ao mesmo tempo fascinantes trilhas da educação, sobretudo no setor público. Atuei como professora de matemática, com os pés firmes e feliz na sala de aula, titular de cargo, ao longo de 18 (dezoito) anos, em Piedade. Quase que naturalmente, segui para a área da gestão. Habilitada também em Pedagogia, exerci a função de coordenadora pedagógica, depois diretora de escola e supervisora de ensino na Diretoria de Ensino – Região de Votorantim. Estes dois últimos cargos, frutos de aprovação em concurso público. Com toda confiança caminhei para mais um grande desafio: Dirigente Regional de Ensino de Sorocaba.

Após esse período fértil e em contato com as lideranças políticas da região, aceitei concorrer como prefeita da minha cidade natal. Estava plena, aposentadoria à vista e já se fazia presente em minha mente a necessidade de um novo plano para a minha vida.  Era preciso retribuir ao povo piedadense tudo que me fora ensinado e praticado na minha formação. Era hora de representar o povo, defender seus direitos fundamentais e buscar a melhoria da qualidade de vida para todos. Escolhi trilhar o caminho da política partidária e concorrer à função de Prefeita. Fui eleita: a primeira mulher prefeita da cidade.

Em meio a julgamentos e incertezas, optei em seguir nesse caminho. Enfrentei uma frustação de não conseguir ser reeleita. Resisti e segui.  Fui eleita vereadora, com o maior número de votos. Foi um grande reconhecimento.

Por fim, a minha trajetória confirma e traduz a minha presença em cadeiras tão desejadas por muitas mulheres. Estas não provaram o sabor da liberdade de escolha, foram reprimidas, outras se calaram e se conformaram. Algumas virão, até para rever o meu papel de instituinte. Assim espero.

Balizada por todas essas perspectivas, nasceu a minha autobiografia.  Denominei-a de “A CADEIRA QUE ME CABE”. Foi lançada em novembro de 2025, pela editora Labrador.

@mariavicentinagps

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