Apesar de moradias modernas cada vez mais compactas e as fotografias restritas, quase que exclusivamente, ao ambiente digital, o hábito de guardar imagens e objetos antigos é cultivado por alguns longevos. Para assinalar essa intenção amorosa de ‘congelar’ momentos ao conservar, através dos anos, itens que simbolizam histórias vividas, especialmente no meio familiar, o AFINAIDADE buscou depoimentos entre pessoas 60+. Confira aqui os relatos:

Se recordar é viver, Maria Apparecida Marciano Nery, 91 anos, professora aposentada, tem muitas lembranças dos pais, da convivência em família e da sua mocidade. Tudo muito bem guardado na memória, mas também simbolizado em objetos que preserva com carinho e zelo. Entre outros, uma réplica da igreja matriz (hoje Basílica Menor) da cidade de Piedade (SP), onde ela nasceu e vive até hoje. “Meu pai mandou fazer essa igrejinha e, todo final de tarde nos reuníamos para rezar o terço na frente dela. Era um oratório, cheio de imagens de santos”, relembra saudosa.
Ao falar das peças que trocaram de mãos por mais de uma geração, Cida, como é carinhosamente chamada pelos familiares, lembra também de um pilão, panelas de barro e de ferro, vasos de metal e de um grande rádio antigo, acomodado sobre um armário em sua casa atual. “Os vasos minha mãe utilizava quando ia à igreja decorar o altar de Santo Antônio, função que era de sua responsabilidade. E o rádio, que ficava na copa da casa, era de uso da família, que se reunia em torno desse meio de comunicação, geralmente após o jantar. Naquela época não tínhamos televisão e nosso entretenimento era ouvir músicas”, conclui.
Uma bicicleta, inúmeras lembranças

De descendência espanhola – seu bisavô atravessou o oceano para tentar a vida no Brasil – Luiz Antônio Urtado, 64 anos, aposentado há 10 anos e ainda atuando como autônomo no ramo do transporte, nasceu em uma família de três irmãos, na cidade de Votorantim (SP). Dos dois aos sete anos viveu em São Paulo, próximo ao aeroporto de Congonhas, porque o pai foi trabalhar na metrópole, na antiga companhia de energia, a Light. Mas a história que une os dois de forma ainda mais afetiva é uma bicicleta. Quando o pai tinha 18 anos, residia no litoral paulista e ganhava o sustento como pedreiro comprou o veículo, que seria o seu primeiro meio próprio de locomoção. Luiz salienta que, por coincidência, o patriarca havia nascido em 1935, mesmo ano de fabricação da bicicleta. Conhecida como raridade de origem britânica, confeccionado em aço, o veículo aro 26, da marca Hércules, se encontrava abandonado na casa do pai, o que levou Luiz a cuidar do restauro de cada peça e garantir que permanecesse com o dono até o fim da vida. Atualmente, essa espécie de memória sobre duas rodas ocupa local de destaque na residência do devotado filho, em Sorocaba(SP): no alto da parede da área gourmet, que abriga uma churrasqueira e recebe familiares e amigos.
“Preservo como recordação do meu pai e por ter sido o primeiro veículo usado por ele”, justifica Luiz, que já comunicou ao neto Pedro, de 12 anos que, no futuro, a bicicleta passará aos cuidados do herdeiro. Hoje, apesar de apta a circular, virou objeto do seu ‘museu particular’. Ao invés de pedalar, Luiz divide o tempo livre entre pescar e acompanhar o neto nos treinos de futebol.
Sonhos bordados

Dedicada à área da educação na idade adulta, já mãe de 3 dos seus 4 filhos, Maria Leonor Marques Morais Fazzini, de 84 anos, teceu o futuro desde criança, ao pé da avó e tias, sempre em atividade em suas máquinas de costura. Elas bordavam em equipamentos, no passado, muito distintos daqueles com os atuais recursos tecnológicos, valendo-se de adaptações. Eram enxovais inteiros para as moças a caminho do matrimônio, até roupinhas para recém-nascidos, vestidos de debutantes ou de formatura e peças como colchas e toalhas com desenhos autorais, para uso doméstico.
Tudo artesanalmente desenhado sobre linhos, cambraias, percal (derivado 100% do algodão), tecidos nobres e raros, alguns pouco acessíveis ou desaparecidos hoje, tramas capazes de durar um século ou mais. E assim foi a rotina das costureiras da família de Mariazinha, junto a outros dois irmãos, sempre querida por todos pelo jeito de cultivar as tradições e guardar como relíquias os pedaços de sua história, costurada fio a fio. “Para preparar as filhas para o casamento, para serem as rainhas do lar, a primeira providência era o enxoval e, para isso, era necessário ter uma máquina de costura, muitas vezes a partir de grande esforço financeiro para adquirir o bem”, recorre às suas reminiscências de quando ainda menina-moça, em sua cidade natal, Ilhabela, no litoral paulista. As marcas Elgin e Vigorelli – marcas com as quais conviveu Mariazinha, numa época em que, segundo ela, “muito se fazia nos próprios lares, pouco se comprava pronto”. O tempo passou e a Vigorelli de propriedade da família sobreviveu até ao ataque do cupim em seu gabinete, peça de madeira que sustentava o equipamento. “Tendo passado por limpeza, lubrificação e recebido um novo motor, a senhora idosa Vigorelli se mantém em uso”, comemora ela. E os primeiros passos com a máquina, a inspiraram a fazer curso de bordado à mão e, inclusive, formar grupo de alunas nesta arte. Mariazinha, feliz por ter propagado o item tão relevante para a sua vida, arrisca uma previsão: “talvez a nova geração vá disputar a posse da máquina e ela volte a conquistar lugar de honra em suas casas”. Enquanto isso não se torna realidade, até porque, considera Mariazinha, as “rainhas do lar ingressaram no mercado de trabalho”, resta a saudade de uma época em que havia tempo para bordar e costurar. Inclusive sonhos

