Por: Maria Celia de Abreu*
Ao refletir sobre o tema e percorrê-lo, quis dispor de algumas provocações guiadas pela seguinte pergunta: sob a ótica da psicologia, comportamentos que envolvam empatia e solidariedade contribuem para um envelhecimento mais saudável? Questão bastante atual. Sabemos que estamos em pleno processo de inversão da pirâmide populacional – graças ao aumento da longevidade e diminuição da natalidade, fenômenos já bem conhecidos e constatados. Decorrência disso é: como acrescentar qualidade aos anos de vida, dentro de uma sociedade, ela mesma, envelhecida?
A OMS (Organização Mundial da Saúde) vinculada à ONU (Organização das Nações Unidas), em 1995, conceituou qualidade de vida como a percepção (subjetiva, é claro) de um estado de bem-estar físico, mental e social, o que vai além da ausência de doença. Por sua vez, a Assembleia Geral da ONU definiu que o período de 2001 a 2030 seja a Década do Envelhecimento Saudável, com manutenção da autonomia (capacidade de tomar decisões) e independência (capacidade de ir e vir) da pessoa idosa.
A realidade é complexa. Há heterogeneidade em todos os grupos etários, mas aumenta muito nas faixas de idade mais avançadas. Pesquisas evidenciam que o envelhecimento é determinado não só por fatores biológicos, psicológicos e sociais, o que já é um universo de dimensões colossais. Mas, também, pelo contexto histórico-cultural, algo dinâmico e mutável, com o qual o indivíduo tem que interagir e ao qual se adapta da infância até a velhice. O desafio de viver com qualidade incorpora variáveis que vão além da saúde física: pede atividade, participação, acesso a recursos da comunidade, socialização, aprendizagens, criatividade, rejeição a todas as manifestações de idadismo, entre outros preconceitos etc.
Porém, como o envelhecimento populacional é um fenômeno recente, ainda estamos explorando as suas consequências. Nesse ritmo, navega a psicologia. Há alguns teóricos, com propostas bastante interessantes, mas não podemos esquecer que é uma ciência, em meio a descobertas sobre como funciona o psiquismo dos sêniores. Vejo com simpatia a teoria do desenvolvimento epigenético da personalidade proposta por Erik Erikson. Entre outras qualidades marcantes, abrange o percurso inteiro da vida humana, inovando ao valorizar em pé de igualdade as primeiras e as últimas etapas da vida. Ainda admite interferência de variáveis sociais na formação do psiquismo, o que era deixado de lado por seus antecessores. A progressão da personalidade se dá através de crises psíquicas, a serem superadas fase à fase.
Preocupação com o outro
Para os maduros, a boa resolução dos desafios dessa fase está em incorporar o que Erikson chamou de generatividade. O conceito implica a preocupação com o outro, o devolver para a sociedade o que até então recebeu dela. Resulta em comportamentos de cuidar e compartilhar. Caso não seja bem resolvida, e nem incorporada no seu psiquismo, a pessoa experimenta a estagnação.
Na fase imediatamente seguinte, a do adulto idoso, a contrapartida é o desespero. Para superar esse quadro, é preciso alcançar o que o autor chama de integração ou ressignificação. Envolve revisão das etapas anteriores, constatação de quais foram mais bem resolvidas e correção dos pontos fracos. Se bem equacionada, instala-se a sabedoria, a percepção de ser parte da humanidade.
Empatia e solidariedade contribuem para o envelhecimento mais saudável? A resposta é “sim”. Perceber-se como alguém, que contribui positivamente para o mundo, demanda estar presente por inteiro nessas etapas do próprio desenvolvimento. Além de compartilhar pensamentos, experiências, sentimentos e vivências com outras pessoas. É ir além de ser útil, de ter um lugar (talvez até mesmo de destaque!) dentro da cadeia de produção da sociedade. Supõe ocupar um lugar e levar contribuição ativa em setores da economia, da cultura, da educação, da espiritualidade, do civismo, da saúde, moradia e segurança, de um jeito próprio, que ninguém mais ocuparia tão adequadamente.
Por certo há uma complexidade no trajeto tomado pelo envelhecimento de cada um; junto com a comprovada heterogeneidade das faixas etárias mais velhas. Se torna praticamente impossível oferecer diretrizes detalhadas de comportamento; seria uma proposta fútil e tola; cada um de nós precisa encontrar, dentro da sua singularidade, qual caminho solidário é o melhor para si.
Via de duas mãos
A teoria psicológica do desenvolvimento oferece, porém, uma orientação para nossas práticas cotidianas e para nossas escolhas. Ela respalda a busca ativa de qualidade de vida no envelhecimento, através de engajamento em causas sociais e humanitárias.
À parte os benefícios que a sociedade pode receber (o que não significa que estou minimizando esse lado da questão, jamais!), relembro que é voz geral que a participação em causas sociais e humanitárias pode gerar ganhos tanto para quem recebe ajuda quanto para quem oferece. Como envolvem habilidades de empatia, oportunidades de tomadas de decisão, colaboração, exercício de responsabilidade e manifestações de solidariedade, favorecem vínculos afetivos, aprofundam o autoconhecimento, elevam a autoestima e criam redes de suporte socioafetivo, em torno de uma causa comum.
Diante do objetivo de todos que é atravessar as paisagens do envelhecimento com a melhor qualidade de vida possível e acha que o engajamento em causas humanitárias pode lhe trazer respostas bastante recompensadoras, esteja certo de que a psicologia está de acordo com sua escolha. Estejamos seguros que a sociedade será beneficiada e sua saúde também. Você terá criado uma longevidade boa de ser vivida e deixará um legado positivo para quem o suceder neste mundo.
* Maria Celia de Abreu é psicóloga, professora universitária e psicoterapeuta, doutora em Psicologia pela PUC-SP. Fundou e coordena o Ideac – cujo foco principal, desde 1992, é a Psicologia do Envelhecimento. Autora, entre outras obras, de “Depressão e Maturidade” (ed. Plano, 2003) e de “Velhice, Uma Nova Paisagem” (Ágora, 2017).

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