Passar algumas horas ouvindo Sylvio Ferraz falar de sua trajetória profissional e contar fatos ocorridos em seus 75 anos dedicados ao turismo, é muito gratificante. Ele me recebe na sede da sua empresa Monark, no centro da capital paulista, onde faz questão de ir todos os dias, de segunda a sexta. “Nem no período da pandemia deixei de vir”, informa orgulhoso. Logo de início me surpreendo ao saber que, no próximo 27 de setembro, ele completará 91 anos. Cita nomes e datas sem consultar anotações. E chega até a se surpreender com sua memória. “Acho que o Alzheimer está bem longe de mim”, afirma sorrindo.
Sylvio é paulistano e tem descendência portuguesa e espanhola. Seu avô paterno era de Ázere, povoado localizado no município de Tábua, distrito e região de Coimbra, Portugal; e sua mãe nasceu na cidade de Granada, Espanha. Estudou em escola pública, cursou Científico e Técnico em Contabilidade e passou no vestibular para a faculdade de Direito de São José dos Campos (SP), mas não deu continuidade, quando se casou.

Tudo começa na adolescência
Seu primeiro emprego foi aos 16 anos, na Real Transportes Aéreos (RTA) e ainda guarda sua carteira de trabalho, registrado como ‘menor’. Fazia reservas e, na época, os dados de todos os passageiros eram manualmente anotados em uma prancheta. Quando a RTA foi vendida para a Aerovias Brasil, a mudança não o agradou, principalmente pelo novo chefe. A solução foi mudar de setor: trocou a reserva pelo arquivo de telegramas. Não satisfeito, contrariado e consciente de que era potencial desperdiçado, se entusiasmou ao receber convite da Pan American World Airways, que tinha o maior escritório do mundo da aviação, e para lá foi. Afinal, o salário oferecido era cinco vezes maior do que então recebia. Depois de quatro anos tomou nova decisão e foi trabalhar por conta própria. Em 1960, comprou a operadora de turismo Monark.
No início, um dos destinos que mais vendia era Miami. “Os brasileiros sempre gostaram de lá. Mas os turistas norte-americanos também vinham para visitar o Brasil e a maioria tinha preferência por Foz do Iguaçu”, relembra.
Visionário e muito inteligente, Sylvio Ferraz percebeu que o número de passageiros que atendia era suficiente para lotar um monomotor DC-3. Pensou logo em fretar um avião, pois sabia que seu lucro aumentaria. A Perdigão, que, à época, atendia vários destinos dentro do Brasil e transportava embutidos (frangos e presunto), de Santa Catarina para São Paulo. “Contatei sua direção e expliquei meu plano. Salientei, no entanto, que só seria viável se, ao chegar no aeroporto de Congonhas, a aeronave fosse lavada e desinfetada e, ainda, serem instaladas 28 poltronas. Assim fizemos nossas primeiras viagens São Paulo/Foz do Iguaçu, com aterrissagem em pista de terra batida”.
A operação durou muito tempo, até que a Perdigão decidiu parar. Como a Monark já vendia muitos pacotes para os Estados Unidos e Europa, Sylvio resolveu continuar com os fretamentos, agora para o exterior.

Voos mais altos
“Os chamados charter não existiam no Brasil. Comecei fretando com a Braniff e, após dois anos, quando a empresa saiu do mercado, passei a trabalhar com a Transbrasil e a introduzi no segmento. Operávamos São Paulo/Miami com o Boeing 767, que tinha capacidade para 230 passageiros. Fomos muito bem-sucedidos até a companhia resolver transformar o voo fretado em regular e tentar vender os bilhetes diretamente. Não gostei dessa atitude e fui procurar a Vasp – Viação Aérea São Paulo, que até então só realizava viagens nacionais”.
O Airbus 310 da Vasp não tinha a autonomia do Boeing 767 da Transbrasil, portanto, não conseguia fazer voos diretos para destinos mais distantes. As primeiras operações foram para a Argentina: Córdoba e Buenos Aires. Posteriormente, Aruba, Curaçao, Bahamas e Jamaica, com escala em Manaus. E para Miami e Orlando, partia de São Paulo e parava no Rio de Janeiro, Brasília, Manaus e Aruba. Com a Vasp, a Monark realizou centenas de charter, transportando cerca de 150 mil passageiros, durante cinco anos. E com a Aerolíneas Argentinas, somente durante uma Semana Santa, levou 862 passageiros, em seis fretamentos.
A operação continuava fazendo muito sucesso e Sylvio Ferraz quis voar ainda mais alto. Com o Boeing 707 da Varig, levou milhares de brasileiros à Europa: Paris, com escala na Ilha do Sal e, posteriormente, à Roma e ao Japão, Singapura e Bangkok, passando pela Costa Leste dos Estados Unidos. Para coroar seu pioneirismo, na virada de 1989 para 1990, fretou o Concorde, o jato supersônico que voava a mais de duas vezes a velocidade do som, atingia 2.170 km/h e consumia mais de 25 mil litros de combustível por hora.
“A aeronave tocou o solo paulistano durante voo experimental da rota Paris-Rio. Ao aterrissar em Paris, no Charles de Gaulle, a visibilidade era zero. Da escada do avião eu não vi o chão. Foi uma experiência incrível para todos e, para mim, de uma maneira especial porque sou piloto. Fiz umas 30 viagens para os Estados Unidos com aviões bimotores e jatos também. Durante muito tempo utilizei meu pequeno avião nos finais de semana para ir à fazenda que tive, no interior paulista”.


Ensinamentos e condecorações
Seus quatro filhos cresceram acompanhando sua trajetória e, de diferentes formas, seguiram seus ensinamentos e sua paixão pelo turismo, dentro da Monark e por toda a indústria, em posições de liderança. Os netos tomaram caminhos distintos: Medicina, Administração de Empresas e Economia, mas com a mesma determinação do avô.
Ao longo de sua vida profissional, Sylvio Ferraz recebeu inúmeras homenagens e condecorações em reconhecimento à sua expressiva contribuição para o desenvolvimento do turismo. Entre elas, destaca-se o diploma Jupiter Rex, concedido na década de 1950 aos viajantes que cruzavam a linha do Equador durante a viagem de São Paulo a Nova York. Recebeu ainda as chaves e os títulos de Cidadão Honorário de Miami, Miami Beach e Nova York, além do diploma de Xerife Honorário de Phoenix, no Arizona. Em São Paulo, foi agraciado com o título de Cidadão Paulistano, a Medalha Anchieta e o título de Doutor Honoris Causa em Turismo.
Ao olhar para sua trajetória, resume seu legado com a serenidade de quem dedicou uma vida ao setor: “Acredito ter cumprido minha missão no turismo”, conclui.
@monarkturismo
Fotos: acervo pessoal

